Não, os Açores não são o “Hawai do Atlântico”

Desde que me conheço que ouço dizer que tenho uma “costelinha açoriana”. Há mais de 20 anos, o meu pai, que é militar, foi chamado para uma base em São Miguel e a minha mãe, que naquela altura não tinha nada a perder, foi atrás.

É com um brilho no olhar que falam daqueles anos em que viveram nos Açores, no anexo improvisado da dona Filomena e do senhor Artur, duas pessoas que rapidamente se transformaram numa mãe e num pai “emprestados”.

Farol, Ilha São Miguel, AçoresCampos verdes, Açores

Passaram duas décadas e nunca tive oportunidade de visitar aquela ilha que, de alguma forma, também se tornou um bocadinho minha. Na memória fica a minha mãe a contar as vezes em que, na companhia dos dois cães que herdaram e já com uma grande barriga de grávida, fazia crepes ao serão enquanto esperava que o meu pai chegasse, quando dizia que a Lagoa do Fogo era das coisas mais bonitas que já viu, principalmente quando o sol aparecia, e o meu pai a imitar na perfeição a típica pronúncia açoriana: “Está muito vantooo”, dizia entre risos.

Filipa, Lagoa do Fogo, AçoresGuilherme, Lagoa do Fogo, Açores

Todos os anos ouvia um “temos de voltar” mas a intenção não passava disso mesmo, uma promessa que ficava guardada na gaveta. Este ano que passou, os meus pais celebraram 25 anos de casados e, portanto, decidimos que era desta. Estava na altura de regressar ao sítio onde foram tão felizes (e agora com uma Filipa suficientemente crescida para perceber o fascínio que este lugar cria em toda a gente). Na televisão, ouvimos sempre dizer que as vacas dos Açores são as mais felizes do mundo. Agora percebo porquê.

Vaca malhadas, Açores

Lagoa das 7 Cidades, Açores

Eu nem gosto muito de silêncio mas aqui, aliado à paisagem verde a perder de vista, recheada de hortênsias em cada recanto, faz todo o sentido. Também não gosto de sentir a água a ferver a tocar-me no corpo mas, entre caldeiras naturais e um oceano que se mistura com a magia dos vulcões, não podia pedir mais nada.

Guilherme, Poça da Dona Beija, AçoresFilipa e Guilherme, Caldeira Velha, AçoresFilipa, Ferraria, Açores

Além disso, não há como resistir a um lugar que vive as quatro estações do ano no mesmo dia, que tem praias de mar azul e areia cor de chocolate, cozidos à portuguesa que saem debaixo da terra diretamente para o prato, os ananases mais bonitos e deliciosos que alguma vez comi, um cheirinho constante a lapas a estalarem na frigideira e uma bebida que, para além da Coca-Cola, agora também ocupa um lugar especial no meu coração: Kima Maracujá. Nem vale a pena falar da comida porque ainda hoje, nos meus devaneios gastronómicos, penso: “Agora calhava bem aquele polvo da Tasca ou o bife com pimenta da terra da Associação Agrícola”.

Guilherme, Praia dos Mosteiros, AçoresGuilherme, Praia da Ribeira Quente, AçoresGuilherme e Filipa, Praia da Ribeira Quente, AçoresFilipa, Praia da Ribeira Quente, Açores

Em São Miguel, tive a sensação de que os meus sentidos estavam muito mais apurados. Havia tranquilidade e vontade para experienciar cada momento de uma forma mais intensa. Acho que as pessoas também me contagiaram a fazê-lo. Conheci pessoas incríveis, especialmente a nossa “segunda família”, com os filhos e os netos que vieram pelo caminho, e que nos receberam com um sorriso aberto e um abraço apertado.

Filipa, Miradouro da Boca do Inferno, AçoresAnanás dos AçoresGuilherme, Miradouro da Boca do Inferno, Açores

No outro dia, vi num daqueles prestigiados jornais britânicos que os Açores são o novo “Hawai do Atlântico”. Achei aquilo uma idiotice. Os Açores são os Açores, ponto final. Queixei-me ao Gui mas ele não percebeu a minha indignação e deixou-me a falar com as paredes. Acho que ir a São Miguel fez finalmente acordar a “costelinha” de que tanto me falavam. E se antes torcia o nariz quando o ouvia, porque queria que me vissem, só e apenas, como uma mulher do Norte, agora percebo que o misto entre os dois lugares nunca fez tanto sentido.

Guilherme, Praia dos Mosteiros, AçoresFilipa, Praia dos Mosteiros, Açores

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