Hiroshima, um murro no estômago

6 de agosto de 1945. O mundo enfrentava mais uma Guerra Mundial e, às oito horas da manhã, o Japão foi surpreendido por “Little Boy”, a bomba atómica que arrasou Hiroshima e deixou cerca de 250 mil mortos e feridos. Quem me conhece, sabe que História era uma das minhas disciplinas preferidas (e gostava tanto que cheguei a ter a ideia completamente maluca de um dia poder vir a ser professora). A II Guerra sempre foi uma das matérias que mais me fascinou, queria sempre saber tudo sobre aquela época. Por isso, não visitar Hiroshima estava fora de questão.

Chegámos à cidade ao final do dia e lembro-me perfeitamente do momento em que estávamos no tram, a caminho do hostel, super carregados com as nossas mochilas. Ao fundo, estava a imagem que sempre tinha visto nos manuais escolares e na televisão: o Memorial da Paz, também conhecido por A-bomb Dome.

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O dia seguinte começou cedo. Queríamos aproveitar ao máximo para explorar a cidade e, sobretudo, visitar com calma o parque e o museu. Graças ao peso que tem na história mundial, juntamente com Nagasaki, Hiroshima acabou por se tornar um ponto de paragem quase obrigatório no roteiro dos turistas ocidentais que visitam o Japão. Como seria de esperar, a zona do Memorial tem grandes multidões e tudo aquilo a que temos direito: máquinas fotográficas sempre a disparar, selfie sticks e barulho. A forma de contornar isso é visitar a cúpula à noite (acho que guardo muito mais essa memória porque a atmosfera daquele sítio estava completamente diferente).

Felizmente, durante a manhã, tivemos a sorte de ser “interrompidos” por um japonês que, com muita pena minha, não fui capaz de memorizar o nome. Os japoneses costumam ser reservados mas acho que este senhor, já com alguma idade, ficou tão encantado com a “diferença” do Gui, que decidiu meter conversa enquanto admirávamos a estátua de Sadako Sasaki, a jovem que se tornou um dos símbolos desta tragédia, graças à mensagem de esperança que conseguiu passar com os seus tsuru (origami).

Ficou muito surpreendido quando lhe dissemos que éramos de Portugal. Acho que os japoneses nos têm em boa conta ou, pelo menos, este senhor tem. Sabia muito da nossa história: da época dos escravos até à nossa posição neutra no conflito. Foi um feliz acaso ter-nos encontrado e ter tido a “lata” de querer falar connosco.

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Sei que há muitas pessoas que não gostam de perder tempo em museus (geralmente, também prefiro andar pelas ruas e ver o dia-a-dia das cidades e dos que lá vivem), mas o Museu de Hiroshima vale infinitamente a pena. Não consigo explicar por palavras o “murro no estômago” que este sítio representa. É uma imensidão de factos, de histórias, de detalhes, dos vestígios da guerra e do sofrimento que estas e outras tantas pessoas passaram. As coisas que durante tantos anos vemos nos livros e que, durante algumas horas, estão ali, à nossa frente, a dizer: “Não deixem que isto se volte a repetir”.

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A tarde estava reservada para Itsukushima, uma pequena cidade mais conhecida por Miyajima, e à qual chegámos depois de uma rápida viagem de comboio e de barco. À nossa frente estava o maior protagonista deste local sagrado: o grande Torii, que tantas vezes já devem ter visto na Internet, e que funciona como a porta de entrada no santuário.

Uma vez que está construído sobre a água, quando está maré alta, parece que o Torii está literalmente a flutuar, dando uma imagem muito mais teatral. Porém, a maré baixa também tem as suas vantagens, porque podemos caminhar até lá e sentir que estamos numa cena do “Querido, encolhi os miúdos”. Nós tivemos a sorte de apanhar as duas versões. No centro da ilha está o monte Misen, uma montanha também considerada sagrada, e que nos deixou completamente “wow” pela sua grandeza.

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Miyajima é o lugar perfeito para andar sem mapas nem destino. Com exceção da parte inicial, que está repleta de lojas de comida e de souvenirs, vaguear pela ilha é, por si só, uma experiência memorável. Para além dos templos e das milhares de figuras e figurinhas do Buda, o silêncio e a plenitude deste lugar sentem-se da ponta dos pés até à ponta dos cabelos. Um dos sítios mais “zen” em que já estivemos, sem sombra de dúvida.

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De regresso a Hiroshima, aproveitámos a última noite para conhecer o outro lado da cidade. Sim, porque embora carregue um peso quase impossível de esquecer, acho que os locais tentaram dar a volta por cima e transformá-la num sítio onde, acima de tudo, se celebra a vida. Já tínhamos percebido isso no hostel onde ficámos, com funcionários jovens, muito bem dispostos e sempre prestáveis.

E não há melhor forma de celebrar a vida do que com a barriga cheia, não é verdade? Hiroshima foi uma agradável surpresa a nível gastronómico. Para além dos maravilhosos yakitori (espetadas de frango) acompanhados de uma boa cerveja numa tasca japonesa, nunca nos vamos esquecer do momento em que, depois de muito tempo à espera, num restaurante cheio de malta animada e a falar alto, nos trouxeram para a mesa uma okonomiyaki, a famosa panqueca japonesa. Desculpem a ausência de fotografias mas os olhos “falaram” mais alto (e a fome também).

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Ps. Já viste o nosso vídeo sobre o Japão?

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