Monte Koya, o segredo para passar do caos ao céu

Depois da energia eletrizante de Tóquio, chegava finalmente o momento final da nossa viagem e aquele pelo qual estávamos mais curiosos: o Monte Koya, também conhecido por Kōyasan. Esta montanha em Wakayama fica a cerca de duas horas de viagem de Osaka e é considerado o local mais sagrado para o budismo Shingon no Japão. Finalizada a viagem de comboio, na qual impera o verde dos vales e montanhas, chega a última etapa: uma subida (muito) acentuada num teleférico vermelho muito engraçado.

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O Monte Koya pode resumir-se em três palavras: templos, mosteiros e silêncio. Depois de vários dias na loucura da capital, até os nossos ouvidos estranharam todo aquele sossego. E foi quando chegámos ao mosteiro budista (shukubo) onde íamos pernoitar que percebemos que nada do que tínhamos visto até ali se podia comparar com aquele lugar. À entrada, esperava-nos a receção e uma fila de sapatos de vários feitios e tamanhos. Também nós tivemos de deixar as nossas sapatilhas, que trocámos por uma espécie de chinelos.

O nosso anfitrião não tinha mais de 20 e tal anos. Era um jovem monge, com ar envergonhado. Levou-nos até ao quarto onde, por detrás das portas deslizantes, nos esperava o tatami e as yukatas. Explicou-nos todos os procedimentos: o jantar era servido às 18h00, as orações matinais começavam às 06h00 do dia seguinte, o pequeno-almoço era servido depois. No final da conversa, já estava mais relaxado e até nos confidenciou que sabia muito bem quem era o Cristiano Ronaldo.

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O jantar foi servido no quarto e deve ter sido uma das experiências mais surreais que vivemos no Japão. A refeição é um conjunto de pratos vegetarianos (shojin-ryori) e, por mais que o “nosso” monge nos tentasse explicar cada um deles, não fazíamos a menor ideia do que estávamos a comer.

Acabámos de jantar a uma hora em que, em Portugal, provavelmente ainda estávamos a esfregar a barriga do lanche. Estávamos fora do templo para dar uma volta às redondezas e Kōyasan parecia uma verdadeira cidade fantasma. As ruas estavam escuras, praticamente sem luz, e instalou-se um silêncio ensurdecedor. Como é que íamos sobreviver com o estômago quase vazio durante tantas horas? Precisávamos de nos distrair.

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Quando voltámos ao templo, já praticamente todos os hóspedes estavam recolhidos. Decidimos que era o momento certo para experimentar os banhos termais (onsen) que tanto tínhamos ouvido falar. Com as nossas yukatas, cada um seguiu para o seu respetivo balneário.

A tradição manda que, ao chegar à zona de banhos, temos de tirar completamente a roupa e lavar o corpo numa zona com banquinhos e chuveiros. Só depois podemos entrar no onsen, onde as águas termais estão completamente a escaldar.

Depois de três semanas com uma mochila pesada às costas, a dormir em camionetas e a andar dezenas de quilómetros por dia, “mergulhar” naquelas águas foi uma verdadeira bênção. Dificilmente nos vamos esquecer desta experiência e aconselhamos os mais pudicos a despir-se (literalmente) de preconceitos e a entrar no espírito. Acreditem que não se vão arrepender.

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O dia seguinte começou bem cedo, com as orações matinais. Nestas cerimónias é completamente proibido usar a yukata. É um sítio sagrado, com os monges a fazer os seus cânticos, as suas preces e o cheiro a incenso a tomar conta da sala. É uma experiência incrível para ocidentais como nós mas a nossa barriga já só pedia “pequeno-almoço”. Adivinhem o nosso entusiasmo quando voltámos ao quarto e vimos pratos idênticos ao do jantar? Tofu, legumes e afins em jejum?

Não querendo ser desrespeitosos para com os costumes daquele lugar, comemos o que nos foi possível mas, interiormente, já só queríamos um café e uma torrada. Fizemos o check-out e corremos até ao supermercado mais próximo que, imaginem, também tinha turistas à porta à espera que abrisse.

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De energias repostas, aproveitámos o dia para conhecer mais alguns pontos importantes, nomeadamente o Okunoin, o maior e mais bonito cemitério budista do país. Cedros gigantes, centenas de lápides em pedra cobertas de musgo e um ambiente muito zen (até vermos a placa do “cuidado com os ursos” numa zona ali próxima).

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Esta foi a nossa última paragem no Japão. Depois seguimos novamente para Osaka, onde apanhámos o avião de regresso a Portugal. Na próxima semana, queremos fazer uns artigos diferentes que, quase de certeza, vão dar muito jeito a quem está a pensar embarcar até à Terra do Sol Nascente. Fiquem atentos!

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